Esta é a história do cinema noir em diapositivos e com trilha sonora correspondente a diversos filmes do seu período histórico. A relação entre a psiquiatria e o cinema noir é marca indelével. Uma é o corolário do outro. Este blog foi feito para aqueles que amam a sétima arte e a medicina.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
História do Cinema Noir em Slides
Esta é a história do cinema noir em diapositivos e com trilha sonora correspondente a diversos filmes do seu período histórico. A relação entre a psiquiatria e o cinema noir é marca indelével. Uma é o corolário do outro. Este blog foi feito para aqueles que amam a sétima arte e a medicina.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Historiadores e historiadores (A Propaganda Enganosa)
HISTORIADORES E HISTORIADORES
O texto a seguir
foi postado por mim em 2014. Volto a fazê-lo na medida em que li alguns
pretensos historiadores criticando as pessoas que participaram das
manifestações do povo brasileiro contra o governo mais corrupto da história do
Brasil, o do PT. Seu argumento furado é baseado no fato de que há uma minoria
de manifestantes que têm reivindicado a volta dos militares ao poder. Na
verdade, a maioria esmagadora dos manifestantes foi composta por democratas que
desejava ver o País livre desta corja de ladrões que pensava em implantar um
bolchevismo canhestro, o chamado bolivarianismo, entre nós. E ainda tiveram o
descaramento de mandar o povo ler livros de História como se todos fossem
completos ignorantes.
Propor o
liberalismo econômico, o direito pleno pela livre-iniciativa e pelo
empreendedorismo, a liberdade de opinião e de imprensa, o direito ao lucro,
mola propulsora do progresso em toda a história da Humanidade, que faz a
economia crescer na medida em que gera mais empregos, que disponibiliza mais
bens e recursos para toda a população, menos Estado na condução da economia,
livre comércio, são sinônimos para essa gente, de mentalidade atrasada, de
entreguismo ao capitalismo norte-americano. Eles são vítimas de um
anticapitalismo e antiamericanismo infantis, que tem infestado nossas redes
sociais, a imprensa chapa-branca, as universidades e a chamada “intelligentsia”
tupiniquim. Quem tem um pensamento liberal é tachado de forma primitiva como
“coxinha”, ou, pior, “fascista”. A vanguarda do atraso continua atacando nossa
inteligência, como o faz há mais de meio século.
Esse método de
atacar os liberais, não pelas ideias e pela força da argumentação, mas pela
desconstrução do adversário ideológico, pela tentativa de destruição do
indivíduo como pessoa, tentando pespegar-lhe uma chuva de rótulos falsos e que
nada dizem, é mais uma manifestação da tentativa de doutrinamento, ao estilo
Antonio Gramsci, que procura corroer por dentro os valores culturais, morais,
históricos e políticos de nosso povo, como um câncer a corroer por dentro
nossas instituições. É assim que esses falsos historiadores estão a ensinar
nossas crianças e jovens nas nossas escolas, deturpando nossa História do
Brasil e a História da Humanidade. Trata-se de uma vergonhosa e criminosa lavagem
cerebral, bem ao estilo de Paulo Freire. Cinismo puro, pois quem não conhece a
História são esses hipócritas que falam em democracia, quando, na verdade,
valorizam ditadores e déspotas sanguinários e genocidas, que, em nome de um
falso progressismo e pela falsa valorização dos chamados “movimentos sociais” e
“direitos humanos”, ferem os mais preciosos direitos dos cidadãos de
livre-pensar, de livre trabalhar, de circular, de escrever, de opinar, de
votar, etc. São, em sua essência, bolchevistas e, dado seu peculiar DNA, querem
implantar esse bolchevismo caboclo entre nós.
Mas o bolchevismo é
essencialmente mau. Basta ler grandes historiadores contemporâneos como: Robert
C. Tucker, Leszek Kolakowski, Robert Conquest, Robert Service, Simon Sebag Montefiore,
Tony Judt, Roger Scruton, Marc Ferro, Luuk van
Middelaar, Ronald Aronson, François Furet, Anne Applebaum, os irmãos russos
Zhores e Roy Medvedev, o psicólogo polonês, dublê de historiador, Andrew
Lobaczewski, o romeno Vladimir Tismaneanu, o marechal russo Dmitri Volkogonov,
com sua grande obra “História da União Soviética”, as biografias de Lênin e
Stalin, e que nos deixou o relato da escabrosa história dos bastidores do poder
daquela ditadura bolchevique, já que viveu em suas entranhas, Ian Kershaw,
Moshe Lewin, o sociólogo e grande pensador francês Raymond Aron e muitos,
muitos outros.
Os exemplos são
inúmeros de grandes Historiadores (com H maiúsculo) que nos descrevem a face
desumana, sanguinária e mentirosa do bolchevismo. No Brasil, temos o exemplo de
Boris Schnaiderman com seu grande “Os Escombros e o Mito – A Cultura e o Fim da
União Soviética”, um notável relato de como o bolchevismo soviético destruiu a
cultura, as letras, as artes, a ciência, a história, a medicina, a psicologia,
a moral e todas as formas do pensamento evoluído do povo russo, em pleno século
XX. Aliás, Schnaiderman é o maior tradutor de Dostoievski para o português.
Na área da
Literatura , quem leu a obra de Alexander Solzhenitsyn, prêmio Nobel de
Literatura (somente pôde recebê-lo após deixar seu país e se exilar no
Ocidente), autor de, entre outras obras primas, “Um Dia na Vida de Ivan
Denisovitch” e “O Arquipélago Gulag”, Boris Pasternak, também prêmio Nobel de
Literatura, em 1958, com o seu “Dr. Jivago”, e que jamais pôde sair de seu país
para receber o galardão, sabe muito bem do que estou escrevendo. Quem conhece
as perseguições aos compositores Dmitri Shostakovich e Sergei Prokofiev, que
tiveram suas obras criticadas por Stalin por representar o “sentimentalismo
pequeno-burguês” e por não terem aderido ao famigerado “realismo socialista”,
também sabem muito bem do que escrevo.
Muitos não sabem,
mas os grandes escritores, biólogos, intelectuais e dissidentes russos, os
irmãos gêmeos Zhores e Roy Medvedev, hoje reconhecidos em todo o mundo como
brilhantes personagens da cultura do século XX, tiveram suas obras publicadas e
fartamente distribuídas clandestinamente na União Soviética, mimeografados (os
chamados Samizdats) e secretamente levadas para o Exterior, onde foram
publicadas, a partir de 1962, nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Eram críticos
ferozes das esdrúxulas teorias de Lysenko, apadrinhado de Stalin, que,
renegando as teorias de Mendel na genética, mentirosa e fraudulentamente
queriam impor a ideia de que sementes, submetidas à temperaturas muito baixas,
poderiam se adaptar, se reproduzir e se transformar em plantas resistentes às
temperaturas congelantes do território siberiano, numa forma abjeta de fazer
propaganda do que seria um dia a agricultura soviética, supondo que ela se
tornaria o celeiro do mundo. Foi um desastre total e uma vergonha para a
ciência soviética. Sua farsa foi desmascarada, não sem antes Lysenko ter
influenciado Stalin, que havia mandado assassinar todos os grandes geneticistas
e professores russos, seguidores das teorias mendelianas clássicas. Um horror!
A medicina e a psicologia soviéticas ficaram engessadas e atrasadas por mais de
60 anos em função dessa ideologia deletéria e assassina.
As esquerdas citam
como o grande historiador do século XX o britânico Eric Hobsbawn, um grande e
prolífico autor, sem dúvida, mas cuja linha teórica, enviesada pelo seu
marxismo militante, ficou contaminada e comprometida por sua visão parcial da
História. Haja vista que, em seu best-seller, aliás muito vendido no Brasil, “A
Era dos Extremos”, no qual aborda o curto século XX (para ele, começou em
agosto de 1914, com o início da I Guerra Mundial, e terminou em 1989, com a
queda do Império Soviético), Hobsbawn não escreve uma mísera palavra sequer
sobre os crimes de Stalin, denunciados por Krustchev, por ocasião do XX Congresso do Partido Comunista, em 1956, em Moscou. Esta denúncia foi motivo de
centenas de deserções de intelectuais dos partidos comunistas mundo afora,
inclusive de intelectuais brasileiros do Partido Comunista Brasileiro, sobressaindo-se,
dentre eles, Jorge Amado, e ainda pelo suicídio de muitos outros, que não
suportaram tomar conhecimento dos horrores perpetrados pela ideologia que lhes
era o sustentáculo do sonho e da utopia por toda a sua vida pretérita. O detalhado
relato do jornalista Osvaldo Peralva em seu famoso “O Retrato”, de 1955, é um
claro testemunho do que digo.
Esse é o exemplo
que tentaram implantar no Brasil, mascarado pelo lulopetismo, baseado nas teses
do Foro de São Paulo, com falsas promessas de melhoras nas condições de vida do
nosso povo, mas que, na verdade, almejavam apenas tomar o poder e, em seguida,
mantê-lo a qualquer preço. Puro engodo, agora denunciado nas manifestações populares.
Somente em 2015 foram três grandes manifestações com a presença de milhares de
brasileiros do bem.
Assim, compartilho
novamente esta súmula que escrevi sobre o que foi o bolchevismo para a cultura,
as artes, a ciência, a medicina, a psicologia e a sociedade russas. Um banho de
sangue, a completa destruição de uma grande cultura e a criação de um deserto
de pensadores. É a herança maldita do comunismo/socialismo que o lulopetismo,
numa demonstração de atraso cultural nunca antes visto neste país, quis nos
enfiar garganta abaixo.
O regime soviético foi a maior fábrica de mentiras da história. Basta ver este curto vídeo retratando, em pôsteres, o que teria sido a pretensa vida na União Soviética sob o regime de Stalin. Usando a arte intitulada de "realismo socialista", vemos aqui uma aula de engodo, embustes, falsificações da história e uma propaganda para iludir os incautos que rivalizava com a propaganda nazista de Joseph Goebbels.
Nenhuma mísera palavra sobre os genocídios contra populações ucranianas, cossacas, bielorussas, caucasianas, mongóis, casaques, uzbeques, tadjiques, quirquizes, turcomenas, azerbaijanas, moldavas, georgianas, armênias, transcaucasianas, povos dos países bálticos (letões, lituanos e estonianos), trabalhadores rurais dos kolkhoses e sovkhoses, as perseguições e assassinatos de dissidentes políticos russos, judeus, católicos, ortodoxos, protestantes, homossexuais.
As perseguições e assassinatos de artistas criativos e independentes, poetas (Vladimir Maiakovski, que se suicidou, Anna Akhmatova, Osip e Nadezhda Mandelstam, Sergei Yesenin, que também se suicidou, Marina Tsvetaeva, Nicolai Punin, Nicolay Gumilev, Mikhail Bulgakov), cientistas, escritores (Isaak Babel, Alexander Soljenitzin, Boris Pasternak), músicos e compositores (Sergei Prokofiev, Dmitri Shostakovich, Mstilav Rostropovich, Vladimir Horowitz), biólogos (Zhores e Lev Medvedev), geneticistas (Nicolai Vavilov, Isaak Agol, Solomon Levit, Grigorii Levitskii, Georgii Karpechenko,Georgii Nadson), médicos (Semyon Gluzman), psicólogos (Lev Vigotski), psicanalistas (Nikolai Osipov, Tatiana Rosenthal, Moshe Wullf, Sabina Spilrein, Vera Schmidt), físicos (Andrei Sakharov, Valery Chalidze, Andrei Tverdokhlebov), químicos (Yuriy Yarim-Agaev, Yuri Orlov, Anatoly Scharansky, Alexander Ginzburg), matemáticos (Leonid Plyushch), os gulags, os fuzilamentos coletivos e secretos, os julgamentos espúrios, a manipulação dos dados e estatísticas, o assassinato de camaradas que lutaram na Revolução Bolchevique de 1917 (Trotski, Bukharin, Zinoviev, Kamenev, Radek, Kautszki, Ricov, Muralov e dezenas de outros), etc., etc...
Esta foi, talvez, a máquina mais mortífera contra as liberdades do homem e contra a civilização, ao lado do nazismo. Mas a propaganda continua a enganar os tolos mundo afora, como se pode ler pelos comentários abaixo.
Acredite quem quiser, mas a História (com H maiúsculo) não mente! E o pior é que tentam implantar isso na América Latina. Jamais passarão! Nosso povo não permitirá!
Vejam abaixo uma coleção de posteres da propaganda enganosa soviética que iludiu jovens, adultos e idosos mundo afora por mais de 70 anos. Infelizmente, continua enganando indivíduos cegos por toda a América Latina. Ao final, um link no qual vocês poderão ver todo o alcance da propaganda mentirosa stalinista ainda em vigor no mundo.
***
https://www.youtube.com/watch?v=J_uC0wy_O90
sábado, 26 de novembro de 2016
Minha Viagem à União Soviética em 1981
No dia 17 de novembro de 1981,
exatamente há 35 anos, chegava eu à União Soviética numa viagem de visitas a
instituições de pesquisas em neurociências, a hospitais psiquiátricos e aos
laboratórios onde trabalhou o grande cientista russo, Ivan Petrovich Pavlov,
prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1904. Foi a maior epopeia (posso assim
dizer) de minha vida. Tal foi possível com a fundamental ajuda do grande e
saudoso amigo, Dr. João Belline Burza, um dos maiores neurocientistas
brasileiros das décadas de 1950/60, que estivera exilado politicamente naquele
país por muitos anos. Em 1975, publiquei meu primeiro livro intitulado
“Introdução à Psiquiatria Reflexológica – As teorias de Ivan Pavlov na
psiquiatria”, que se popularizou e contribuiu muito para a divulgação de suas
teorias no Brasil. Alguns anos depois, através de amigos comuns de São Paulo,
conheci o Dr. Burza que voltara do exílio em 1974. Tornamo-nos muito amigos e o
visitei algumas vezes em sua cidade natal, Ouro Fino, Sul de Minas, para onde
se mudara após ser acometido de grave doença, após torturas no DOI-CODI de São
Paulo, quando de seu retorno da URSS. Sua hospitalidade foi marcante e fomos
grandes amigos até seu passamento em 1989.
| Catedral do Arcanjo, onde os czares eram sepultados. Encontram-se aqui 46 túmulos. |
| Praça das Catedrais. À esquerda, Catedral da Anunciação. À direita, Catedral de Ivan, o Grande. Praça das Catedrais, Kremlin. Ao fundo, o prédio do antigo Senado, na era dos czares. |
| Catedral da Anunciação de N. Senhora (1489), parte sul da Praça das Catedrais do Kremlin. Aqui eram celebrados os batismos e os casamentos dos czares. |
| Praça das Catedrais. À esquerda, Catedral da Anunciação. À direita, Catedral de Ivan, o Grande. |
| Catedral de São Basílio, detalhes. Praça Vermelha, defronte ao Kremlin. |
Burza havia trabalhado com Piotr
Kusmitch Anokhin, discípulo da última geração de Pavlov (que faleceu em 1936),
nas décadas de 1920/30, e introduzira os conceitos de neurocibernética em
fisiologia (mecanismos de auto-regulação das atividades cerebrais). Ele tinha
cidadania soviética (seu passaporte brasileiro havia sido cassado) e esteve
casado com uma cidadã soviética alguns anos antes. Através de suas amizades e
influências junto a autoridades da Universidade de Moscou, de Leningrado, da
Academia de Ciências da URSS e do Ministério da Saúde, ele obteve, a meu
pedido, um convite para visitar instituições científicas naquele país que eu
tanto já conhecia pela sua literatura e pelos textos científicos.
| O Arsenal. Kremlin. |
| O Palácio dos Czares (sua antiga residência). Kremlin. |
| O Palácio dos Czares (sua antiga residência). Kremlin. |
| O Palácio dos Czares (sua antiga residência). Kremlin. Ao fundo, a Torre Spasskaya (No. 1). |
| O Palácio dos Czares (sua antiga residência). Kremlin. |
| O Arsenal. Kremlin. Ao fundo, a Torre Troitskaya (Trindade). |
| Muralha Sul do Kremlin, com a Torre Tanitskaia. A algumas dezenas de metros à sua direita fica o Rio Moscou, que banha a capital e margeia o lado sul do Kremlin. |
| Muralha Sul do Kremlin. Torre do Rio Moscou. |
| Uma das torres da Muralha Sul do Kremlin, ao lado do Rio Moscou. |
Recebi o convite oficial do
Ministério da Saúde no início de 1981 num texto escrito em língua russa. Minha
emoção só não foi maior do que a que tive após ter sido o texto traduzido por
uma amiga professora de russo em escola de línguas em Belo Horizonte. Após
solicitar o visto da Embaixada Soviética, em Brasília, eu o recebi após seis
meses (era o tempo que se levava para que as autoridades russas pudessem
analisar o perfil social e político de alguém que solicitasse esse visto). O
mundo vivia plenamente a Guerra Fria e todo cuidado era pouco para se avaliar
possíveis espiões nas duas superpotências (USA-URSS). Os turistas comuns
somente podiam entrar no país em grupos dirigidos pela empresa de turismo
estatal Intourist, com guias locais que falavam espanhol. Os passeios eram
todos planejados com antecedência por essa empresa e ninguém podia sair do
roteiro estritamente estabelecido. Eu viajei numa situação especial: fui
sozinho, com meu passaporte, o visto e o convite oficial do Ministério da Saúde
da URSS a tiracolo. Foram meses de preparativos tensos para esse grande evento.
Fiz curso de língua russa por poucos meses, apenas para poder cumprimentar as
pessoas e não passar por deselegante. Mas eu estava com o inglês bem afiado e
contava com a certeza de que os cidadãos das grandes cidades que eu visitaria
(Moscou e Leningrado) falassem a língua de Shakespeare, em função de que as
Olimpíadas de Moscou haviam ocorrido há pouco mais de um ano (1980). Ledo
engano.
Lá cheguei, após escala de uma
semana em casa de amigos em Estocolmo, numa temperatura de -5 graus Celsius. No
aeroporto de Sheremetievo, em Moscou, passei por uma análise rigorosa na cabina
de avaliação de passaporte e visto (eu estava com o convite anexado ao
passaporte), por dois oficiais das Forças Armadas que me fixaram os olhares
intensamente, vendo todos os detalhes de minhas feições, comparando-o com minha
foto no passaporte, por um tempo interminável para mim, que, acredito, tenha
durado uns cinco minutos. Trocamos poucas palavras em inglês, quando expus os
motivos de minha viagem. Eu suava em bicas dentro de um grosso capote para
enfrentar o frio escandinavo, que eu ganhara em Estocolmo, e com quatro camadas
de roupas por baixo. Além do mais, eu levava nos bolsos do capote, pequenos
embrulhos com pedras semi-preciosas de Minas Gerais, para presentear os
professores com quem me encontraria. Com grande alívio, passado esse tempo
infindável, eu os vi pegar um grande carimbo e batê-lo sobre o visto. Por
incrível que pareça, meu passaporte não foi carimbado, numa medida que ainda
não sei exatamente o porquê. Apenas posso imaginar que as autoridades
soviéticas não queriam comprometer um visitante diferenciado (eu não era um
turista normal) com carimbos em seu passaporte, para, posteriormente, não haver
problemas com alfândegas norte-americanas. São apenas suposições. Dei graças a
Deus e fui pegar minhas malas.
![]() |
| O Sino do Czar. Ao fundo, o antigo Senado. |
Estava tão atordoado com tudo
isso, vivia como se estivesse num sonho, que, ao sair da sala de bagagens para
a recepção de passageiros que chegam, não vi um cartaz com uma pessoa onde se
lia “Dr. Correa”. Passei direto e, meio
perturbado, sem saber para onde ir, perguntei a um dos servidores dessa área
onde ficava uma sala de espera. Fui encaminhado para uma grande sala onde havia
duas grandes mesas, com funcionários burocráticos, a quem expliquei minha
situação e lhes passei meus documentos. Eles leram tudo atentamente, sem saber
o que fazer. Pediram que eu me assentasse numa das poltronas da sala, onde
havia mais pessoas que aguardavam solução para suas situações, e passaram a dar
telefonemas, uns atrás dos outros. Meu coração batia acelerado, minha pressão
arterial devia estar nas alturas. E eu pensava com meus botões: “E agora, José,
que o será de mim? Onde fui me meter?” Após quase meia-hora surge um senhor
alto, magro, todo encapotado (todos me pareciam espiões) que conversou com um
dos funcionários. Imediatamente ele apontou-me a este senhor que dirigiu-se a
mim, imediatamente. Em inglês fluente, identificou-se “Sou o Prof. Yurii
Urivaev, do Instituto de Fisiologia Normal P.K. Anokhin, da Universidade de
Moscou, e estou a recepciona-lo aqui, Dr. Correa”. Foi como se o céu descesse,
cheio de anjos, capitaneados pelo anjo Gabriel para me salvar daquela situação
terrível.
![]() |
| Ala Sul do Kremlin, vista do Rio Moscou. Foto Alexandergusev, Wikipedia. |
A gentileza do Prof. Urivaev
jamais será esquecida por mim. Ajudou-me com as malas, saímos do aeroporto, nos
aproximamos de um carro que já nos esperava. Era o carro do Instituto de
Fisiologia da Universidade, com seu motorista que se mantivera com o motor
ligado todo esse tempo, para que o motor não desligasse com o frio. A partir
daí, sentado confortavelmente no banco de trás, contei aos dois minha aventura,
o estresse que passara, e o alívio que tive ao ter essa tão cálida acolhida. O
Prof. Urivaev era um homem ilustrado. Havia feito pós-doutorado na Universidade
da Califórnia, Estados Unidos, e já estivera em diversas universidades europeias.
Minha amizade com ele perdurou até a alguns anos quando, após a queda do regime
soviético, não tive mais notícias dele, em 1991. Tentei localiza-lo, mas foi em
vão. Continuarei tentando.
| Passeios a pé e patinação em Arkhangelskoye, a 40 Km de Moscou. |
![]() |
| Gatinhos em Arkhangelskoye, a 40 km de Moscou. |
Foram 15 dias que estive na União
Soviética, com tudo pago pelo governo, inclusive as refeições diárias. Gastei
apenas o valor das passagens de ida-e-volta para o país e presentes que adquiri
para mim, minha família, colegas e amigos no Brasil. Foi a viagem mais
importante de minha vida, a divisora de águas, tanto cientificamente, quanto
ideologicamente, quando vi, in loco, a realidade do socialismo e suas mazelas.
Mas vi também as belezas do povo russo, de sua arte, sua arquitetura, sua
amabilidade e duas de suas mais belas cidades. Sua literatura eu já conhecia bem
e admiro até hoje. Não me canso de dizer que foi a leitura da obra de
Dostoievsky a responsável por eu ter seguido o caminho profissional que assumi.
Nesta postagem comemorativa desses 34 anos, revelo algumas fotos dessa epopeia
que marcou minha vida e que compartilho com os amigos do Facebook.
Assinar:
Postagens (Atom)
































